Estudo aborda consequências das enchentes no Rio Grande do Sul para a saúde, o emprego e os ambientes de trabalho
Texto original de Fundacentro (gov.br), reproduzido com atribuição. Leia na fonte.
O ensaio “Eventos climáticos extremos no Rio Grande do Sul e os impactos na Saúde dos Trabalhadores”, publicado na Revista Brasileira de Saúde Ocupacional (RBSO), volume 50, analisa os efeitos do desastre climático ocorrido no Rio Grande do Sul, em 2024, sobre a saúde e o trabalho. O artigo integra o Dossiê Desenvolvimento Sustentável e Trabalho e é de autoria de Adriana Skamvetsakis e Neice Muller Xavier Faria.
As autoras analisam publicações acadêmicas, dados e informações institucionais sobre o evento e seus impactos nos trabalhadores, além dos desafios envolvidos no processo de reconstrução. O estudo destaca a necessidade de incluir as mudanças climáticas na formação e na atuação dos profissionais de Saúde do Trabalhador e de outras áreas da saúde.
O desastre ocorrido em 2024, no Rio Grande do Sul, atingiu 478 municípios gaúchos, o equivalente a 96,2% do total, e afetou 2.398.255 pessoas. Foram registrados 183 óbitos, além de milhares de pessoas desabrigadas. Chuvas intensas, inundações e deslizamentos também provocaram perdas de locais de trabalho, empregos e renda.
As inundações aumentam a exposição a riscos biológicos, físicos, químicos, ergonômicos e de acidentes. Entre os problemas de saúde associados a esses eventos estão leptospirose, hepatite A, tétano, infecções respiratórias e de pele, traumatismos e transtornos mentais.
No Rio Grande do Sul, os dados apresentados no ensaio indicam aumento da leptospirose relacionada ao trabalho. Foram registrados 103 casos em 2023, média de 8,6 por mês. Até novembro de 2024, foram 192 casos, média mensal de 17,5.
O estudo também aborda os efeitos sobre a saúde mental. Os registros de transtornos mentais relacionados ao trabalho passaram de 141 casos, em 2022, para 399, em 2023, e 626, em 2024.
Além das consequências diretas para a população, as enchentes atingiram a própria estrutura de atendimento em saúde. Estimativa de pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), citada no ensaio, aponta que cerca de 3 mil estabelecimentos de saúde teriam sido afetados pelas enchentes.
O ensaio destaca que, durante eventos climáticos extremos, trabalhadores podem ficar expostos aos riscos de forma mais precoce, intensa e prolongada. Entre os grupos mais vulneráveis estão trabalhadores da agricultura e da construção civil, socorristas, bombeiros, profissionais de saúde, pescadores, migrantes, trabalhadores informais e aqueles que exercem atividades ao ar livre.
“As populações de trabalhadores mais afetadas pelas mudanças climáticas incluem trabalhadores agrícolas, construção civil, socorristas e bombeiros, profissionais de saúde, pescadores e outros trabalhadores expostos a condições climáticas externas, por longos períodos”, informam Adriana Skamvetsakis e Neice Faria.
Durante o desastre no Rio Grande do Sul, profissionais de saúde, bombeiros, equipes da defesa civil e de outros serviços, além de voluntários, atuaram em resgates, atendimento às vítimas, apoio aos abrigos, limpeza e reconstrução. Essas atividades ampliaram a exposição a diferentes riscos ocupacionais.
Os trabalhadores também enfrentaram perdas de moradia, bens, familiares e locais de trabalho. Em muitos casos, precisaram continuar trabalhando enquanto lidavam com as consequências pessoais e coletivas das enchentes.
Os efeitos também chegaram ao mercado de trabalho. Segundo dados apresentados no ensaio, em maio de 2024 o Rio Grande do Sul registrou mais demissões do que contratações. Na comparação com maio de 2023, dos 23 mil postos de trabalho perdidos no país naquele mês, 22 mil estavam no estado.
Nos 418 municípios onde foi decretado estado de calamidade, pelo menos 23,3 mil estabelecimentos privados teriam sido diretamente atingidos, assim como 334,6 mil postos de trabalho.
A agropecuária também sofreu perdas. O estudo aponta que 9.158 localidades foram afetadas, com danos em casas, galpões, silos, estufas, aviários, estradas e áreas de produção. Mais de 32 mil produtores foram atingidos.
As autoras ressaltam que a reconstrução após um desastre dessa dimensão é complexa e deve considerar a possibilidade de novos eventos climáticos extremos. “Os estudiosos da questão climática alertam que vão ocorrer novos eventos climáticos extremos no futuro”, afirmam. Diante disso, apontam que a reconstrução deve considerar áreas mais seguras e resistentes e que o planejamento ambiental e os sistemas de alerta podem contribuir para reduzir a exposição da população às áreas de risco.
O estudo também destaca a importância da participação de técnicos e representantes dos trabalhadores no planejamento das ações de prevenção, resposta e reconstrução. "Muitos aspectos são mais bem dimensionados por quem vivencia as peculiaridades do cotidiano do trabalho, explanam as autoras.
Para as autoras, os desastres climáticos precisam integrar a formação e os planos de ação dos profissionais que atuam na Saúde do Trabalhador. A preparação para eventos extremos é apontada como parte das estratégias necessárias para ampliar a capacidade de resposta, proteger os trabalhadores e reduzir os impactos sobre a saúde e o trabalho.
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Fonte: Fundacentro, publicado em 21/09/2026. O AcheiSST não altera nem complementa o texto de órgãos oficiais.
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