Força-tarefa com MPT, MTE, Receita Federal e Vigilância Sanitária identificou subnotificação sistemática de CATs em frigorífico de Medianeira. Empresa assinou TAC e tem prazo para regularizar toda a documentação.
MEDIANEIRA, PR — Uma auditoria conjunta do Ministério Público do Trabalho (MPT), do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), da Receita Federal e da Vigilância Sanitária identificou 7.094 casos de acidentes ou doenças ocupacionais sem a devida Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT) na Frimesa Cooperativa Central, em Medianeira, no Paraná.
A operação ocorreu entre os dias 23 e 27 de março de 2026 e resultou na assinatura de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com a empresa, que tem prazos definidos para regularizar a situação.
Como funcionava a prática de subnotificação
Segundo o MPT-PR, a empresa encaminhava trabalhadores acidentados a serviços de pronto-atendimento particular sem notificar as ocorrências ao INSS por meio da CAT — documento obrigatório por lei sempre que há acidente ou doença de origem ocupacional.
O cruzamento de dados realizado durante a operação revelou ainda que nenhuma CAT de doença ocupacional havia sido emitida pela unidade no período auditado — indicando ausência total de registro nessa categoria.
"A empresa encaminhava os funcionários a atendimento particular sem notificar oficialmente as enfermidades."
— Ministério Público do Trabalho, Regional Paraná
O que é a CAT e quais direitos estão em jogo
A CAT (Comunicação de Acidente de Trabalho) é o instrumento pelo qual o empregador notifica ao INSS que um trabalhador se acidentou ou adoeceu em razão do trabalho. A ausência do documento tem consequências diretas para o empregado:
- Perda da estabilidade provisória de 12 meses após o afastamento
- Dificuldade para acessar benefícios previdenciários em caso de licença
- Exclusão da ocorrência das estatísticas nacionais de acidentes de trabalho
A omissão da CAT configura infração à Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e pode gerar autuação administrativa e responsabilização civil.
Outras irregularidades identificadas
Além da subnotificação, os auditores encontraram outras não conformidades na unidade:
- Máquinas sem proteção: equipamentos operando sem os dispositivos de segurança exigidos pela NR-12
- Gestantes expostas a ruído: 69 trabalhadoras grávidas em ambientes com intensidade sonora igual ou superior a 80 dB(A), nível que exige medidas obrigatórias de proteção
- Ausência de pausas térmicas: nenhuma pausa para conforto térmico nas câmaras frigoríficas, contrariando exigência legal para ambientes de trabalho a baixas temperaturas
Compromissos assumidos no TAC
No último dia da operação, a Frimesa assinou Termo de Ajustamento de Conduta com o MPT comprometendo-se a:
- Emitir as 7.094 CATs omitidas dentro do prazo definido
- Afastar as 69 gestantes de ambientes com ruído acima de 80 dB(A)
- Adequar as máquinas às exigências da NR-12
- Implementar redução de ritmo em setores identificados como críticos
- Atualizar o PGR (Programa de Gerenciamento de Riscos) da unidade
Em nota, a cooperativa afirmou ter mantido "postura totalmente transparente e colaborativa" durante a operação e informou ter iniciado imediatamente o cronograma de adequações.
A unidade de Medianeira processa 6.100 suínos por dia e emprega aproximadamente 5.000 trabalhadores.
Subnotificação: um problema sistêmico no setor
Especialistas em saúde e segurança do trabalho apontam que a omissão de CATs é prática comum em empresas sem SESMT (Serviço Especializado em Engenharia de Segurança e em Medicina do Trabalho) adequadamente estruturado, especialmente quando o atendimento médico é terceirizado para clínicas particulares sem integração com o eSocial.
Com a obrigatoriedade do módulo SST do eSocial, que exige notificação eletrônica de acidentes, a fiscalização se tornou mais sistemática. O cruzamento automático entre registros de atendimento médico e emissão de CAT passou a facilitar a identificação de subnotificações em auditoria.
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