A complexidade dos canteiros de obras dos parques oferece inúmeros riscos dos mais diversos graus, mas os critérios de SST seguem pulverizados em diferentes normas
Texto original de Fundacentro (gov.br), reproduzido com atribuição. Leia na fonte.
Em 2025, a matriz energética do Brasil teve quase 87% de participação de energias renováveis. No mesmo ano, a geração solar fotovoltaica cresceu 24,7%, e a eólica, 8,2%, conforme Relatório Síntese do Balanço Energético Nacional (BEN) de 2026. Os dados são trazidos por Swylmar dos Santos Ferreira, tecnologista aposentado da Fundacentro, durante o seminário "Energias Renováveis e Segurança no Trabalho”, realizado em 03 de setembro na instituição.
O engenheiro participa de dois projetos institucionais relativos à Segurança e Saúde no Trabalho (SST) na indústria da construção de parques geradores de energias renováveis, um voltado à energia eólica e outro à solar fotovoltaica. A coordenadora dos projetos, Maria Christina Félix, destaca que a preocupação é as Normas Regulamentadoras (NRs) não contemplarem toda a complexidade da cadeia produtiva desses parques. São construções em escala gigantesca que exigem protocolos de SST altamente especializados.
“O marco regulatório é robusto, mas a aplicação direta na cadeia produtiva renovável enfrenta gargalos técnicos, falta de detalhamento de engenharia que transforme a teoria regulatória em procedimentos executáveis diários”, alerta.
O tema das energias renováveis dispõe de pouca produção técnica em SST e ausência de normas específicas voltadas ao setor, constatação que veio no levantamento bibliográfico dos projetos. José Renato Schmidt, tecnologista membro da equipe, aponta que quase 70% da produção encontrada nos 19 países analisados se concentram em artigos científicos.
“Os artigos são muito teóricos, há uma carência enorme da parte prática para a questão de Segurança do Trabalho. Muitos materiais apresentam só os benefícios, mas há carência sobre os reais riscos”, observa.
No Brasil, os critérios de SST aplicáveis ao setor estão pulverizados em várias normas, reforça Swylmar ao listar algumas delas. Em relação às NRs, o especialista elenca aquelas que abordam temas aplicáveis aos canteiros de obras de parques de energias renováveis: NR-01, NR-06, NR-07, NR-10, NR-11, NR-12, NR-15, NR-18, NR-23, NR-31, NR-33 e NR-35.
A Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) também dispõe de normas com escopo correlato à SST e que podem ser aplicadas ao setor, como ABNT NBR 16690, 5410, 5419, IEC 61400-1, 14039, 17193, 19274. Há ainda a Lei nº 14.300/2022, conhecida como marco legal de geração distribuída.
A falta de produção técnica e regulamentação também afeta a harmonização de conceitos básicos do setor, com cada instituição tem sua própria conceituação.
“Tem que se colocar no papel, por escrito, para as pessoas entenderem realmente do que se trata e da real necessidade de se ter hoje no Brasil algo sobre Segurança no Trabalho na construção de parques solares e parques eólicos ou alguma outra tecnologia que possa ser considerada viável”, reforça Swylmar.
“Um conhecimento estrutural que é frequentemente negligenciado e subutilizado nas diretrizes técnicas”, ressalta Maria Christina.
Em resposta às preocupações expostas, os projetos de pesquisa em andamento buscam sanar o abismo da pouca produção técnica em SST na implantação de parques de energias renováveis e da ausência de normas específicas. O objetivo é estabelecer a ponte entre os requisitos técnicos, as normas regulamentadoras e a operacionalização segura nos parques a partir da elaboração de materiais técnicos, manuais, folhetos, palestras.
“Estamos começando do zero. A nossa norma para energia renovável é como se fosse uma colcha de retalhos, eu pego NR-18, NR-35, NR-24. Nossa ideia é começar uma recomendação técnica e, no futuro, fazer uma norma”, avalia Maurício Viana, membro do projeto.
Viana, que é engenheiro eletricista e de Segurança do Trabalho aposentado da Fundacentro, apresenta a possível estrutura de uma recomendação técnica ou norma de SST dedicada à energia eólica.
A estrutura contempla todas as etapas e ciclos de implantação de um parque, com itens de engenharias, mobilização, obras civis, logística, montagem eletromecânica e comissionamento. Viana detalha cada uma delas e aponta os riscos de cada atividade e as possíveis medidas de proteção.
Para o tecnologista Robson Rodrigues, é importante que uma futura recomendação ou norma também abarque diretrizes com padrões mínimos para importar, fabricar, locar equipamentos para o setor.
“Nós estamos em um momento crucial para criar um padrão mínimo de métodos, processos e equipamentos a serem utilizados no país”, destaca que também é membro da equipe dos projetos.
Outros produtos de interface com os projetos são direcionados à microgeração de energia solar e intervenções pontuais desenvolvidas em residências e pequenos negócios por profissionais que, muitas vezes, desconhecem informações básicas.
Um deles é a cartilha “Segurança no trabalho em instalação de geração fotovoltaica”, que traz orientações de controle de riscos para a instalação de sistemas solares fotovoltaicos em residências e empresas. Já a cartilha “Trabalho em postes: segurança e saúde no trabalho” é direcionada a trabalhadores de telecomunicações que atuam próximos à rede elétrica.
Energia renovável que coloca em risco a vida dos trabalhadores do setor não é verdadeiramente limpa e sustentável. As megaconstruções envolvem bilhões de reais e milhares de vidas humanas, e todos os ativos da infraestrutura precisam ser protegidos e cuidados, sejam físicos, ambientais, financeiros ou humanos.
Nesse contexto, o aspecto mais reforçado diversas vezes pelos palestrantes ao longo do evento é o papel central do planejamento do projeto de energia renovável.
“É um canteiro de obras que tem que ser muito bem planejado, muito bem projetado, para evitar que existam impedimentos que impeçam de ser colocado em prática, ou seja, que não se consiga fazer funcionar esse parque solar”, observa Swylmar.
Tiago Lamb, coordenador de saúde e segurança de projetos híbridos do setor, frisa que a SST nos parques de energias renováveis vai além de cumprir legislação e preencher documentos. São empreendimentos gigantescos que envolvem diferentes empresas atuando ao mesmo tempo em diversas frentes. A complexidade demanda sincronia e requisitos de segurança muito bem estruturados e aplicados para funcionarem de forma efetiva.
“É uma decisão de projeto e de negócio, a segurança faz parte do negócio. Não é simplesmente oferecer EPI [Equipamento de Proteção Individual] para o colaborador e dar treinamento. Ela começa muito antes e é um valor”, detalha.
Daniel Pinheiro Vieira, engenheiro de Segurança do Trabalho, concorda e destaca que construções de parques não se assemelham a outras obras. Um dos pré-requisitos é que as empresas tenham certificações, como a International Organization for Standardization (ISO) 45001, de Sistema de Gestão de Saúde e Segurança Ocupacional, e outras ambientais e de qualidade. “Empresas que não têm as certificações nem costumam apresentar proposta”, observa.
O diferencial nas contratações recai no como, não no quê. “As grandes empresas não querem mais saber o que será entregue, porque isso já é o esperado, elas querem saber como será feito, os cuidados com os seus trabalhadores”, explica Vieira.
A relevância da SST no setor exige que ela esteja integrada em todas as etapas de planejamento, engenharias, logística, contratações até a entrega final do parque em funcionamento. Por isso a avaliação de riscos inicia previamente ao projeto e ao planejamento de construção, por vezes até cinco antes.
É a partir da classificação prévia dos riscos baixos, médios e altos aos trabalhadores, diretos ou das empresas fornecedoras, e dos riscos empresariais e patrimoniais que se define o projeto. Assim se direciona adequadamente os investimentos para o gerenciamento de riscos, que não inclui apenas treinamentos, equipamentos, capacitação de profissionais. Atende normas de SST, certificações, legislações e envolve planos de contingência e emergência, interlocução com redes de saúde, inclusive hospitais, rotas de acesso, logística, até mesmo apoio aéreo.
A gestão de SST se estende por todo o ciclo de implantação dos parques e é marcada por constantes análises e avaliações, mensais e até semanais. A grandiosidade da obra, com milhares de trabalhadores atuando, muitos ao mesmo tempo, em uma extensão territorial de dezenas de quilômetros de extensão, configura um cenário dinâmico sujeito a mudanças, inclusive nos riscos.
Para atender essa dinâmica, o gerenciamento de riscos envolve recursos, ações e controles frequentes em diferentes níveis administrativos, de engenharia e técnicos. Um ponto primordial para os especialistas é que os trabalhadores participem da análise e do planejamento das atividades a serem executadas no dia.
“A evidência deve estar presente na tarefa, não apenas no sistema documental”, reforça Lamb, que observa que a supervisão e verificação contínuas devem ser capazes de gerar adequações no plano de gestão inicial. A integração frequente com todos os profissionais, das diversas hierarquias de atuação, não apenas quando há novos integrantes nas equipes, também é citada.
Os controles redundantes são outra estratégia fundamental de proteção dos trabalhadores e dos sistemas nos parques de energias renováveis. O recurso ressoou na fala de Gleisiton Vale de Figueiredo.
O especialista em SST reforçou que sistemas duplos de proteção são indispensáveis também nas diversas etapas do comissionamento, fase seguinte à conclusão física da obra de implantação de um parque. É o momento em que se coloca o parque em operação para testar e validar correto funcionamento de todos os equipamentos, circuitos, interfaces, seccionamentos e sistemas do parque, da subestação, das linhas de transmissão.
Para Figueiredo, planejamento, integração, alinhamento e comunicação são alguns dos aspectos fundamentais para todo o processo ser seguro aos trabalhadores envolvidos, inclusive na fase de comissionamento. Nela, o trabalho acontece em redes de média tensão de 34,5 quilovolts (kV), que equivalem a 34.500 volts, às vezes chegando em 230 kV em determinadores setores, um risco que pode ser fatal aos trabalhadores.
Por envolver várias equipes atuando ao mesmo tempo em pontos diferentes dos vários quilômetros que ligam o parque à subestação, os procedimentos e a comunicação precisam ser prioridade na prevenção de acidentes.
“Os trabalhadores precisam saber onde estão colocando suas mãos, onde intervirão. Esse circuito está desenergizado, mas e este? Como eu vou saber? Pela comunicação”, ilustra Figueiredo ao explicar o funcionamento de todo o comissionamento e apresentar casos reais de acidentes.
A comunicação efetiva com todos que fazem parte da obra deve aliar ferramentas e estratégias adequadas, e a linguagem simples é uma delas. “Quanto mais simples a linguagem, objetiva, ele vai captar e vai conseguir fazer essa avaliação de risco. A gente consegue o retorno, que é não ter acidentes”, explica Lamb.
Ao longo do evento, os palestrantes apontaram e explicaram os inúmeros riscos ocupacionais presentes nas etapas construtivas dos canteiros de obras de implantação de parques de energia solar, eólica e híbridos. Alguns são comuns, outros são específicos.
São riscos ergonômicos, climáticos, variações térmicas, quedas de árvores e de altura, acidentes com máquinas e veículos, choques elétricos, esmagamento, incêndios e queimadas, espaços confinados, exposição a poeiras. A lista é grande. O engenheiro Daniel Vieira observa que até acidentes com animais peçonhentos podem acontecer, em especial na fase de supressão vegetal manual.
Essa é uma das razões para a presença de biólogos na primeira fase da instalação de canteiros de obras para construir os parques. Eles não só identificam os riscos com animais, mas também são responsáveis por monitorar a fauna e a flora local para preservar as espécies e cumprir condicionantes ambientais.
Os riscos da expansão da energia renovável, no entanto, extrapolam os parques e chegam à população que, na maioria das vezes, desconhece os protocolos de segurança. É o que verificaram os projetos de SST na indústria da construção de parques de energias renováveis. No caso do uso de energia solar residencial, por exemplo, só em 2025 houve aumento de quase 30%, conforme dados apresentados por Swylmar.
“Quantas e quantas vezes a gente não vê instaladores de placas solares, por exemplo, nas residências, em cima de telhado, completamente fora das questões de segurança?”, questiona Felix.
Por essa razão, eventos como o seminário realizado e outras ações de difusão são fundamentais, pois contribuem para conscientizar sobre a importância da SST no setor, seja em grande ou pequena escala.
Fonte: Fundacentro, publicado em 16/09/2026. O AcheiSST não altera nem complementa o texto de órgãos oficiais.
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